Bem-vindo ao blog da Teoria Pedestáltica.

Aqui você conhecerá um pouco sobre o amor platônico no mundo do rock.

Amores não correspondidos, desilusões amorosas e o modo creep de se ver o mundo, nas palavras de Thom Yorke (Radiohead), Bono (U2), Noel Gallagher (Oasis), Eddie Vedder (Pearl Jam), Axl Rose (Guns N'Roses), Chris Martin (Coldplay), Rivers Cuomo (Weezer) e Fran Healy (Travis), entre outros companheiros de sofrimento.

Criada em 1999. No ar desde março de 2001. Última atualização: junho de 2006.

Introdução

"Quem te ver passar assim por mim não sabe o que é sofrer, ter que ver você assim sempre tão linda. Contemplar o sol do teu olhar, perder você no ar, na certeza de um amor, me achar um nada, pois sem ter teu carinho eu me sinto sozinho eu me afogo em solidão. (...) Nunca acreditei na ilusão de ter você pra mim, me atormenta a previsão do nosso destino. Eu passando o dia a te esperar, você sem me notar. Quando tudo tiver fim, você vai estar com um cara, um alguém sem carinho, será sempre um espinho dentro do meu coração. (...) Sei que você já não quer o meu amor, sei que você já não gosta de mim, eu sei que eu não sou quem você sempre sonhou, mas vou reconquistar o seu amor todo pra mim."

"Anna Julia" (Los Hermanos) - do álbum "Los Hermanos"




O amor é algo lindo, certo? Apaixonar-se é muito bom, é um dos motivos que fazem nossa vida ter sentido, certo? Encontrar a pessoa perfeita, aquela que te completa, aquela que você tem certeza que foi feita especialmente para você, é gratificante, certo?

Mas o que acontece quando você encontra a pessoa ideal, mas você não é a pessoa ideal para ela? Que mistérios se encontram escondidos nesse processo onde o cupido acerta sua flecha em apenas um dos envolvidos e esquece de acertar o outro, o alvo mais importante, o objeto de nossa paixão, a Anna Julia do Los Hermanos?

"Remember in this game we call life, that no one said it's fair."
Lembre-se que ninguém disse que era justo este jogo que nós chamamos de vida.

"Breakdown" (Guns N' Roses) - do álbum "Use Your Illusion Vol. 2"


Durante o desenrolar da leitura, lembre-se bem desta frase. Ela é a única verdade absoluta por aqui. Você verá que o seu autor, Axl Rose (da banda Guns N'Roses), assim como outros grandes nomes do rock, apesar de aparentar ser frio e ter milhares de mulheres aos seus pés, já deve ter sofrido barbaridades nas mãos delas.

Porque nestes caminhos tortuosos que percorremos em nossas vidas sem sentido, às vezes nos deparamos com pessoas que nos deixam pequenos, insignificantes, não dignos de co-habitar o mesmo planeta e compartilhar o mesmo oxigênio, tamanha sua superioridade. E tratamos de idolatrar esta pessoa.

O fato é que existe uma tendência dentro de nosso subconsciente que nos rebaixa diante de determinada pessoa nesta situação. É disso que se trata esta teoria. No caso de você não se identificar com ela, meus parabéns. Suas chances de aproveitar a vida e ser uma pessoa feliz e realizada são grandes. No caso de você se identificar, resta um consolo: saiba que existe muita gente na mesma situação e, ao contrário do que possa imaginar, você não está totalmente sozinho no Universo. Como diria o mesmo Axl Rose:

"Everybody need somebody, no you're not the only one."
Todo mundo precisa de alguém, você não é o único.

"November Rain" (Guns N'Roses) - do álbum "Use Your Illusion Vol."


Capítulo 1 - O Termo Pedestáltico

Antes de mais nada, analisaremos a semântica do termo "pedestáltico". A palavra tem origem no substantivo masculino "pedestal" que, segundo o Dicionário Aurélio é "peça que sustenta uma estátua, uma coluna, etc." No caso aqui estudado, o pedestal serve para se idolatrar a pessoa amada. A pessoa acima do pedestal encontra-se em um nível superior, inatingível, alto demais para que o indivíduo abaixo dela o alcance.

Além do adjetivo "pedestáltico", outras variações tiveram origem no desenrolar desta teoria, como o verbo "pedestalizar" (colocar alguém sobre o pedestal) e os substantivos "pedestaltia" e "pedestaltismo" (que abrange todo o processo pedestáltico), além de outros termos que você não vai encontrar no Aurélio.

Os demais termos utilizados nesta explanação são derivações das obras de brilhantes pensadores de nossa era que conseguem explicar como ninguém as nuances do pedestaltismo, compilados por este que vos escreve. São trechos de músicas que servem de trilha sonora para um caso pedestáltico e, de tão perfeitas, podem causar indignação. Com que direito estes artistas conseguem dizer exatamente o que se passa nas nossas cabeças em momentos tão íntimos?

"Then you listen to the music and you like to sing along, you want to get the meaning out of each and every song. Then you find yourself a message and some words to call your own and take them home."
Então você ouve a música e gosta de cantar junto, você quer entender o significado de cada uma das canções. Então você encontra uma mensagem para você e algumas palavras para usar, e as leva para casa.

"The Guitar Man" (Bread) - do álbum "Guitar Man"




No caso da escolha das músicas, é bom deixar claro que não é minha intenção realizar um tratado definitivo sobre os temas abordados. A escolha foi feita com caráter totalmente pessoal. São as músicas que eu costumo ouvir e com as quais eu me identifico, mesmo sabendo que existem muitas outras músicas de muitos outros artistas que abordam os mesmos temas. Recomendo todas as citadas aqui - procure os CDs, baixe da internet, peça nas rádios, não deixe de conhecer nenhuma destas pérolas.

Capítulo 2 - A Pessoa que Idolatra

O pedestaltismo é um processo inerente a todo ser humano, mas que se manifesta com maior freqüência em determinados indivíduos a quem chamaremos de creep. O termo vem da música homônima da banda inglesa Radiohead - escrita por Thom Yorke - que deu origem a esta teoria e que, com muita justiça, foi eleita o seu hino. Vejamos:

"When you were here before, I couldn't look you in the eye (...) I wish I was special, you're so fucking special, but I'm a creep, I'm a weirdo, what the hell am I doing here? I don't belong here (...) I want a perfect body, I want a perfect soul, I want you to notice when I'm not around (...)"
Quando você esteve por aqui, eu não conseguia olhar nos seus olhos (...) Eu queria ser especial, você é tão especial, mas eu sou um creep (sem tradução), sou um estranho, o que diabos estou fazendo aqui? Eu não pertenço a este lugar (...) Eu quero um corpo perfeito, eu quero uma alma perfeita, eu quero que você perceba quando eu não estiver por perto (...).

"Creep" (Radiohead) - do álbum "Pablo Honey"




Eis a definição perfeita do comportamento psíquico do indivíduo creep que sofre do mal pedestáltico. Ele não é especial, ele quer ser especial, ele quer um corpo perfeito, ele quer uma mente perfeita, ele quer ter sua ausência notada. Mas aos seus olhos ele não é nada disso, e julga que a pessoa que ocupa o lugar sobre o pedestal o é. Ele é um nada, apenas um sujeito estranho, que não pertence àquele lugar, que na verdade sente que não pertence a lugar algum e se sente um elemento estranho no mundo, e que em momento algum chegaria até o topo do pedestal, alcançando o nível da pessoa idolatrada. A banda britânica Coldplay descreve o desprezo através das palavras do vocalista Chris Martin:

"So I look in your direction, but you pay me no attention, and you know how much I need you, but you never even seen me."
Então eu olho na sua direção, mas você não me dá atenção, e você sabe o quanto eu preciso de você, mas você nunca sequer me viu.

"Shiver" (Coldplay) - do álbum "Parachutes"




O creep acredita que não merece nem participar da vida da pessoa do pedestal. Esta teria outras ambições que vão muito além da humilde existência do creep. Ele não é capaz sequer de olhar nos olhos da pessoa idolatrada. Ele apresenta uma combinação de timidez e baixa auto-estima embalados por um histórico de rejeição que pode o acompanhar desde a infância. Por esse motivo, o comportamento creep não se restringe apenas ao âmbito pedestáltico. É uma filosofia de vida. Um estado de espírito.

Capítulo 3 - O Comportamento Creep

Para ilustrar o pensamento creep, vamos recorrer a uma música da banda escocesa Travis, onde o compositor Fran Healy demonstra toda a insatisfação do creep perante sua vida fracassada:

"Why does it always rain on me? Even when the sun is shining, I can't avoid the lightning, oh where do the blue skies go? Why is it raining so cold?"
Por que sempre chove em mim? Mesmo quando o sol está brilhando, eu não posso evitar o raio, para onde foram os céus azuis? Por que está chovendo tão frio?

"Why Does It Always Rain On Me?" (Travis) - do álbum "The Man Who"




O fator pedestáltico é mais um item na imensa galeria de problemas de um creep. Mas é talvez o problema mais palpável, aquele que faz com que ele realmente perceba a sua condição de creep, e faz com que ele se pergunte por que sempre chove nele. Realmente, está sempre chovendo sobre o creep. Esta chuva simbólica é a sina que acompanha o creep por toda a sua vida.

"Everyday I wake up alone because I'm not like all the other boys."
Todo dia eu acordo sozinho porque eu não sou como todos os outros rapazes.

"As You Are" (Travis) - do álbum "The Man Who"




Esta canção traz a marca da solidão, a característica mais marcante do creep. Mesmo que seja algo inconsciente, mesmo que ele tenha muitos amigos, ele se sente sozinho no mundo. Não é de se estranhar, portanto, que os creeps se sintam confortáveis apenas quando estão na companhia de outros amigos também creeps. Assim, eles são facilmente encontrados em bandos, discutindo seus problemas pedestálticos, suas frustrações e lamentando suas vidas, comumente acompanhados de bebida ou músicas melancólicas ou qualquer outra coisa que possa ajudá-los.

O creep normalmente peca por pensar demais. Veja este trecho da música do Oasis, escrita por Noel Gallagher:

"When you're lonely and you start to hear the little voices in your head at night (...) in your head, do you feel what you're not supposed to feel (...)"
Quando você está sozinho e começa a ouvir as pequenas vozes em sua cabeça à noite (...) em sua cabeça, você sente o que não deveria sentir (...)

"Sunday Morning Call" (Oasis) - do álbum "Standing on the Shoulder of Giants"




Pensando demais, raciocinando demais, analisando prós e contras e todas as alternativas sobre o que poderia ter acontecido, o creep pensa em reações, escreve diálogos que nunca sairão de sua cabeça, ou escreve teorias como esta que você está lendo.

A auto-piedade é outra característica importante. Cansado de perder o tempo todo, o creep acaba por ter pena de si próprio, já que ninguém mais parece disposto a fazê-lo. E mesmo que sua vida esteja boa, no sentido de que ele tem saúde, amigos, um emprego, uma família, onde morar e o que comer, mesmo assim não consegue se sentir feliz, ou pelo menos se considerar feliz, porque todo creep sofre da síndrome de elevation. Mas antes de aprendermos sobre esta síndrome, veja um exemplo da revolta de um creep em uma música escrita por Rivers Cuomo, do Weezer:

"I shouldn't complain, I should have no feeling, cuz feeling is pain. As everything I need is denied me and everything I want is taken away from me. But who do I got to blame? Nobody but me."
Eu não deveria reclamar. Eu não deveria ter sentimentos, pois sentimento é dor. Como tudo que eu preciso é negado a mim e tudo que eu quero é tirado de mim. Mas quem eu devo culpar? Ninguém além de mim.

"The Good Life" (Weezer) - do álbum "Pinkerton"


Capítulo 4 - A Síndrome de Elevation

A música deste capítulo traz a primeira contribuição dos irlandeses do U2 para a teoria:

"A mole digging in a hole, digging up my soul now going down, excavation. I and I in the sky, you make me feel like I could fly so high, elevation."
Uma toupeira cavando num burado, cavando a minha alma, indo pra baixo, escavação. Eu no céu, você me faz sentir como se eu pudesse voar tão alto, elevação.
"Elevation" (U2) - do álbum "All that you can't leave behind"




Freqüentemente, o creep só consegue se sentir feliz ao lado da pessoa amada. O resto de sua vida é um período de "escavação", no qual ele se encontra no fundo do poço, infeliz. Os raros momentos de felicidade são fruto da companhia da pessoa pedestalizada, que o coloca em estado de "elevação", elevando sua alma, fazendo-o voar.

Assim, a síndrome de elevation pode ser explicada na simples diferença entre "escavação/elevação", "ausência/presença", "tristeza/alegria". Os momentos de elevação são momentos de êxtase, catarse, dos quais o creep irá se lembrar sempre. Um exemplo de elevation proporcionado por pedestal e que traz lembranças, na música do Guns N'Roses:

"Now and then when I see her face, she takes me away to that special place and If I stared too much, I'd probably break down and cry."
Desde então quando vejo seu rosto, ela me leva de volta àquele lugar especial e seu eu olhasse demais, provavelmente não aguentaria e choraria.

"Sweet Child O'Mine" (Guns N'Roses) - do álbum "Appetite for Destruction"




É bom deixar bem claro que este efeito causado pela pessoa pedestalizada pode ter origem em gestos muito simples: um telefonema, um e-mail, uma carta, um recado, ou qualquer coisa que vá deixar o creep feliz, mesmo que por um momento efêmero. Depois que o efeito elevation passa, o creep volta ao seu estado de escavação natural. Tal qual alegria de pobre, elevation de creep dura pouco.

O creep não é um masoquista, obviamente ele prefere estar em elevação do que em escavação. Mas o Universo muitas vezes parece conspirar contra o creep e manter-se em elevação é uma tarefa complicada. Por isso, esse estado natural de tristeza do creep pode fazer com que ele se torne uma pessoa amarga, em determinados momentos. É fato que a solidão torna as pessoas amargas. Veja o que diz Thom Yorke, do Radiohead, nesta música:

"And when I'm like this... how can you be smiling and singing?"
E quando estou assim... como você pode estar sorrindo e cantando?

"How Can You Be Sure?" (Radiohead) - do single "Fake Plastic Trees"


Desta forma, o creep não se conforma com a felicidade alheia, principalmente com a felicidade da pessoa idolatrada. Ele pensa: como ela pode estar se divertindo e feliz, se ela é a principal responsável pela minha escavação?

Capítulo 5 - A Síndrome de Kriptonita

O contrário do Elevation é a Kriptonita (apelidada por aqui como Creeptonita). Todo mundo sabe que a Kriptonita é o ponto fraco do Super-Homem. Pois bem: o ponto fraco do creep é a pessoa idolatrada. Basta pensar nela e sua força acaba, seu mundo desaba, seu coração dispara. Veja na música do Ludov, escrita por Mauro Motoki:

"Eu tenho um mundo inteiro pra salvar, mas pensar em você é kriptonita. Você é tão bonita de se admirar. Tão bonita... "

"Kriptonita" (Ludov) - do álbum "O Exerício das Pequenas Coisas"




A Kriptonita, assim como o Elevation, pode ter origem de formas muito simples: um perfume, uma expressão, uma música, um gesto, um lugar, qualquer coisa que faça o creep se lembrar da pessoa. Junto da lembrança vem a constatação de que a pessoa não está ali. Está em outro lugar, com outras pessoas, e não ao seu lado.

Capítulo 6 - A Pessoa Idolatrada

"You say you want diamonds on a ring of gold (...) but all I want is you."
Você diz que quer diamantes em um anel de ouro, mas tudo que eu quero é você.

"All I Want Is You" (U2) - do álbum "Rattle and Hum"




Analisando o verso escrito por Bono, do U2, o creep teria sua vida completa simplesmente com a presença da pessoa idolatrada ao seu lado. Tudo que ele quer é essa pessoa, a quem chamaremos a partir de agora de pedestal, para facilitar o entendimento.

Ainda sobre a música acima, recomendo o seu videoclipe que é talvez o vídeo mais pedestáltico já feito. Ele conta a história de um anão de circo apaixonado pela trapezista. Obviamente, pelo teor da música, trata-se de um creep e seu pedestal, que se encontra literalmente nas alturas realizando seus malabarismos. Não vou revelar o final, mas posso dizer que é muito triste e adequado para o caso. Voltemos à teoria.

Então o creep recolhe-se a sua pseudo-insignificância e fica idolatrando o seu pedestal. Ele faz planos, formula sonhos, edita videoclipes em sua mente com as músicas que lhe fazem lembrar do pedestal. E, quanto mais alto o pedestal, mais o creep tem certeza de que nunca o terá, como conclui William Reid, do The Jesus and Mary Chain, no trecho abaixo:

"You're in my house, you're in my face, you make me hate the human race (...) I think you're something I can't have."
Você está em minha casa, você está em minha face, você me faz odiar a raça humana.(...) Eu acho que você é algo que eu não posso ter.

"Something I Can't Have" (The Jesus and Mary Chain) - do álbum "Hate Rock'n'Roll"




Esta é a constatação de que o pedestal está formado. O processo de subida do pedestal pode ser instantâneo ou então levar algum tempo.

"I'm shaking at your touch, I like you way too much. My baby I'm afraid I'm falling for you."
Estou tremendo com seu toque, eu gosto demais de você. Receio que eu esteja me apaixonando por você.

"Falling for You" (Weezer) - do álbum "Pinkerton"


Da maneira instantânea, o pedestal logo é formado, e aos poucos o creep vai descobrindo novas nuances deste pedestal e o pedestaltismo vai sendo confirmado. Da maneira mais demorada, o creep pode ir descobrindo aos poucos que aquela pessoa tem todas as qualidades necessárias para ser pedestal, e quando ele menos esperar, pronto - o pedestal está formado. Como na música do Weezer acima, escrita por Rivers Cuomo. A partir daí, a tendência é que cada vez mais o pedestal suba e fique mais inatingível com o passar do tempo.

Tempo, aliás, é um fator que pode ser inimigo do creep. O tempo pode fazer com que ele se torne muito amigo de seu pedestal. De tanto forçar uma aproximação em busca de elevation, o creep acaba por se tornar um amigo confidente e leal do seu pedestal e isso, por incrível que pareça, é maléfico, pois faz com que ele tenha medo de que seu sentimento pedestáltico acabe com uma amizade e, o pior, magoe o seu próprio pedestal. Então o creep segue com a sua amizade e vai engolindo sapos e ouvindo frases extremamente constrangedoras como por exemplo: "você é como um irmão para mim", "se você não fosse tão meu amigo, eu ficaria com você", entre outras frases ternas e amigáveis que seriam muito bonitas se não se tratasse de um caso pedestáltico. Veja um caso de amizade pedestáltica na música do Pulp:

"Like a car crash I can see but I just can't avoid, like a plane I've been told I never should board, like a film that's so bad but I've just got to stay 'til the end, let me tell you - it's lucky for you that we're friends."

Como um acidente de carro que eu posso ver mas não posso evitar, como um avião no qual me avisaram que eu não deveria embarcar, como um filme que é tão ruim mas que eu tenho que ficar até o final, deixe eu te dizer - sorte sua que somos amigos.

"Like a Friend" (Pulp) - do álbum "This is Hardcore"




O que muitas vezes o pedestal não percebe é que o creep não é aquela pessoa doce, sensível, compreensiva e companheira que ele conhece. Ele simplesmente não nota que o creep só o trata assim porque está completamente apaixonado por ele. Na verdade, com outras pessoas, ele não é nada doce, nada sensível, nada compreensivo, muito pelo contrário. Em outras pessoas ele pode descontar as suas frustrações, e torna-se uma pessoa amargurada, como já vimos aqui, e como fica claro na música do Garbage:

"I am lost, so I am cruel. But I'd be love and sweetness if I had you."
Eu estou perdido, então eu sou cruel. Mas eu seria amável e carinhoso se tivesse você.

"Milk" (Garbage) do álbum "Garbage"




O pedestal amigo é muito comum. Mesmo porque, para que o pedestal crie raízes e cresça, é necessária uma certa aproximação. Assim sendo, o creep pode criar um pedestal instantâneo andando na rua ou conhecendo alguém num bar, mas esse pedestal será esquecido logo, porque a distância e a falta de uma "história" ao lado do pedestal têm esse poder de cura. Esse pedestal passageiro está bem descrito na música de James Blunt:

"You're beautiful, it's true. I saw your face in a crowded place, and I don't know what to do, 'cause I'll never be with you. (...) And I don't think that I'll see her again, but we shared a moment that will last till the end."
Você é linda, é verdade. Eu vi seu rosto em um lugar lotado, e não sei o que fazer, porque nunca estarei com você. (...) E eu acho que não a verei de novo, mas nós compartilhamos um momento que vai durar para sempre.

"You're Beautiful" (James Blunt) - do álbum "Back to Bedlam"




Mas os pedestais de verdade não são tão rápidos assim. O tempo faz com que o creep crie uma "história" ao lado do seu pedestal, fornecendo matéria-prima para que o creep monte um arquivo de memórias relacionadas ao seu pedestal em sua mente. Cada segundo passado ao lado do pedestal corresponde a séculos para o creep.

O creep se lembra de cada palavra dita, cada gesto, cada expressão. Mas para o pedestal tudo aquilo são momentos passageiros que logo serão esquecidos. O creep nunca se esquece, ele venera o chão que o pedestal pisa.